quinta-feira, 18 de junho de 2009

ESTÉTICA E PUREZA

A sociedade como objeto de planejamento com projetos conscientes. A sociedade pode e deve ser refeita, forçada a conformar-se a um plano geral cientificamente concebido. Além disso, a dimensão estética nesse projeto na tentativa de esclarecer o que é o mundo ideal a ser criado em conformidade com os padrões de uma beleza superior. Uma vez constituído, será imensamente satisfatório, como uma obra de arte perfeita e total, como anteriormente o filósofo alemão Hegel idealizava. Essa obra sublime não permitiria nenhum acréscimo, redução ou alteração, pois não se poderia melhorar algo que é perfeito.

O sonho de uma pureza absoluta seria a essência do racionalmente ordenado e tudo o que corresponde à mesma ordem, sintetizaria a concepção de um mundo puro e perfeito. A sujeira vista como desordem não pode se enquadrar nessa visão de mundo, o único destino seria o aniquilamento daquilo que era imperfeito disforme e desorganizado. A modernidade manteve a concepção puramente racional da realidade, a ciência e a técnica foram a força propulsora do progresso da humanidade, tudo o que fosse obscuro, que ficasse “fora do lugar” harmonioso, da matematização da natureza deveria ser administradamente pela precisão da técnica, posto para fora ou eliminado, pois não se ordenava ao mundo social ajustado da modernidade.


Especificamente o nazismo, ao primar por impelir a tendência totalitária a seu extremo radical e caracterizar-se como um fenômeno da modernidade, exalta-se com o problema da pureza, sendo esse ressaltado de forma racional, o que culminará com a preocupação com a pureza da raça. Nesse caso a sujeira caracterizar-se-á pelo indesejável e incompatível povo judaico com sua arte degenerada bolchevista e a pureza será o ariano puro com sua arte grego-renascentista. A sujeira – judaísmo e arte abstrata (degenerada) – não pode ser afastada ou despejada para fora do alcance da pureza, pois ela continuará infestando outros ambientes e pervertendo a ordem racional das coisas. A única saída será o processo de higienização no Departamento de Higiene Racial e Planejamento Social Nacional-Socialista, a qual deverá remover qualquer resquício de infestação ou imundície. Indubitavelmente essa sujeira acabará entrando pelo portão do “Arbeit macht Frei” e saindo silenciosamente pela chaminé em forma de fumaça.


A busca da pureza moderna expressou-se com a ação punitiva contra as classes perigosas; a busca da pureza pós-moderna se expressa diariamente com a ação punitiva contra aqueles que não podem se encaixar as formas puras do consumismo nos grandes centros e lojas, que não são possíveis de serem enquadrados nas formas lógicas da sociedade de consumo e da livre competição. São os moradores das ruas pobres e das áreas urbanas proibidas, os vagabundos e indolentes que merecem ações punitivas a fim do afastamento desses intrusos e forasteiros da ordenação, lógica e racional da fantasia da pureza pós-moderna.

Tanto na modernidade, quanto na pós-modernidade a “impureza” no centro da ação punitiva é a extremidade da forma incentivada como pura, a extensão até os limites do que devia ter sido, mas não podia ser, conservou-se em região fronteiriça. Na concepção moderna caracterizada pela instrumentalização da razão, com um ideal de pureza total a fim de fazer imperar a ordem das coisas, que visa separar aqueles que não se enquadram nas formas puras do pensar, faz brotar categoricamente fenômenos análogos ao Holocausto, isto é, da completa desumanização da condição humana.

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